O Curso de Relações Internacionais teve uma aula diferente sobre os conflitos existentes entre o Azerbaijão e a Armênia. Foi uma palestra ministrada por um dos maiores especialistas sobre a região Nagorno-Karabakh em pesquisa no Brasil. João Ricardo Xavier é representante do Grupo Amizade Brasil-Azerbaijão e líder da Campanha Justiça para Khojaly. Outros integrantes da Campanha também estiveram presentes e falaram aos alunos sobre suas percepções a respeito das disputas territoriais e políticas que atingem a região há anos.

O principal foco da campanha, criada pela Associação da Juventude Islâmica, é para que o massacre ocorrido na região de Nagorno-Karabakh (fronteiriça entre Azerbaijão e Armênia) seja reconhecido como um genocídio. Segundo Xavier, o fato (ocorrido na noite de 25/2/1992) poderia ser comparado, pela gravidade, aos genocídios em Ruanda e na Bósnia. O massacre teria envolvido a morte de centenas de civis inocentes, dizimados pela força armênia, apoiada por regimentos da extinta União Soviética.

"A questão do genocídio de Khojaly é muito importante, pois é uma questão de direitos humanos, que trata de um crime em que as pessoas morreram não porque estavam lutando por alguma coisa, mas simplesmente por terem uma nacionalidade, por serem azerbaijãos. Precisamos mostrar ao mundo que é um crime pelo qual ninguém ainda foi responsabilizado", explica o estudioso.

Para o coordenador do Curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA, Rafael Pons Reis, o assunto é uma grande oportunidade para atualização dos alunos, para que tenham acesso a informações sobre outras partes do mundo. "Não é sempre que a gente lê ou tem a oportunidade de ter um palestrante especialista em regiões do Cáucaso, que é um barril de pólvora. Hoje, essa é uma região supercomplexa, com alianças muito voláteis. A mídia ocidental não nos passa as informações; a literatura especializada é muito escassa; e temos poucos especialistas no Brasil sobre Nagorno-Karabakh especificamente. Temos hoje aqui conosco um dos maiores estudiosos do País", comenta o professor.

ENTENDA
As montanhas do Cáucaso são a fronteira natural entre a Europa e a Ásia. Uma região de belas paisagens e florestas de pinheiro, que se inicia às margens do Mar Negro e se estende até a costa do Cáspio. A cordilheira também separa a Rússia, ao norte, das três pequenas ex-repúblicas soviéticas do sul: Geórgia, Armênia e Azerbaijão.

Por conta de sua posição estratégica, ao longo dos séculos, a região foi palco de guerras entre romanos, otomanos, mongóis, árabes, russos, persas e bolcheviques, além de diversas tribos e clãs locais. O colapso da União Soviética, em 1991, acirrou novamente as tensões étnicas locais.

Para João Ricardo Xavier, o assunto torna-se ainda mais interessante a partir do momento em que se desmitifica a origem do conflito. "Especializei-me nas questões entre a Armênia e o Azerbaijão porque elas acabam com alguns mitos que existem sobre a guerra ser religiosa. O principal aliado da Armênia (cristã), além da Rússia, é o Irã, um país muçulmano. E o Azerbaijão (muçulmano) tem como maior aliado Israel, um país de outra religião. É um conflito basicamente político", conta.

Na visão do estudioso, o cenário hoje é tenso, numa situação "nem paz, nem guerra". Xavier não vê uma solução breve e se preocupa com a iminência de um combate armado. "Em aspectos econômicos, o Azerbaijão está muito superior à Armênia, e está se armando. No entanto, o apoio que a Armênia ainda tem da Rússia é o que vem freando, por ora, uma possível guerra. Enquanto não houver engajamento real da comunidade internacional para uma missão de paz, não vejo fim para os conflitos", pondera.

Com informações da Agência Estado